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Surras podem afetar comportamento e capacidade de aprendizado de seu filho

Um novo estudo publicado na revista Pediatrics afirma que apanhar pode afetar o comportamento de uma criança e sua capacidade de aprendizagem durante anos.

Crianças de 9 anos que apanharam pelo menos duas vezes por semana pelos pais aos 3 ou 5 anos eram muito mais propensas a quebrar regras e agir de forma agressiva do que as crianças que não levaram surra.

Elas também eram mais propensas a pontuar mais baixo em testes de vocabulário e compreensão de linguagem, se tivessem apanhado com frequência aos 5 anos de idade.

O estudo

Cerca de 2.000 famílias em 20 cidades nos Estados Unidos participaram da pesquisa da Universidade de Columbia (EUA). Os pesquisadores perguntaram aos pais quantas vezes eles haviam batido no seu filho porque ele havia se comportado mal no mês anterior em duas ocasiões: quando a criança tinha 3 e 5 anos.

Também, avaliaram o comportamento agressivo das crianças e seu vocabulário nas idades de 3 e 9.

No geral, 57% das mães e 40% dos pais bateram nos seus filhos de 3 anos de idade, enquanto 52% das mães e 33% dos pais relataram surrar seus filhos de 5 anos de idade.

As crianças cujos pais as bateram nas idades entre 3 e 5 se mostraram mais propensas a agir de forma agressiva e quebrar regras aos 9 anos. Em comparação, apenas as crianças que apanharam com frequência (duas vezes ou mais por semana) aos 3 anos de idade mostraram esse efeito de agressão com 9 anos.

“Essas descobertas surpreendem pessoas que usam a surra para obter resultados imediatos, ou seja, a palmada pode fazer seu filho parar de fazer o que está fazendo no momento”, disse Catherine Taylor, da Universidade de Nova Orleans (EUA), que não participou do estudo. “Mesmo que as crianças não reajam às surras de cara, ninguém fica feliz de apanhar. Os pais estão, inadvertidamente, ensinando a criança que bater ou ser agressiva é uma maneira de resolver problemas”.

Apanhar também teve um efeito sobre as competências linguísticas da aos de 9 anos. As que foram surradas com frequência aos 5 eram muito mais propensas a ir mal em testes que julgaram seu vocabulário receptivo, que é a capacidade de reconhecer e compreender palavras ao ouvi-las ou lê-las.

Esta segunda descoberta sugere que quando os pais batem nos pequenos para fins disciplinares, geram efeitos a longo prazo sobre a capacidade verbal das crianças. “Isso, naturalmente, tem implicações para o desempenho acadêmico e sucesso geral na vida delas no futuro”, disse Taylor.

Ao avaliar a agressão e vocabulário das crianças aos 3 anos, o estudo também testou o argumento de que algumas delas são apenas mal comportadas e, portanto, recebem mais palmadas. Eles descobriram que os efeitos comportamentais e o atraso cognitivo das crianças de 5 anos que apanhavam com frequência mantiveram-se constantes, independentemente do comportamento inicial da criança.
Embora a pesquisa mostre uma aparente associação entre surra e comportamento agressivo e habilidades de aprendizagem da criança, não necessariamente prova uma relação de causa-e-efeito.

Evidências fortes

Esses resultados fazem coro a outras evidências científicas de que bater nos filhos não faz bem para sua educação.

Um estudo publicado em março desse ano descobriu que crianças que apanham e têm uma predisposição genética para o comportamento agressivo se tornam mais agressivas. Pesquisadores canadenses afirmaram em julho que até 7% de uma série de distúrbios de saúde mental em adultos foram associados com a punição física durante a infância.

Outro estudo da Universidade de Manitoba e do Hospital Infantil de Eastern Ontario que analisou 36 mil pessoas durante 20 anos concluiu que nenhuma punição física tem efeito positivo – a maior parte tem, na verdade, efeitos negativos.

Além disso, um estudo da Universidade de Plymouth, em Devon (Reino Unido), indicou que pais que batem em ou gritam com seus filhos os colocam em maiores riscos de desenvolver câncer, doença cardíaca e asma.

Proibir ou não proibir

32 países proíbem o castigo físico de crianças por pais ou responsáveis. No Brasil, a chamada “Lei da Palmada” está em tramitação e pode punir pais que maltratem os filhos. Já nos EUA e Canadá a prática é permitida, apesar da Academia Americana de Pediatria desaconselhar fortemente o uso de castigos físicos como forma de disciplina.

Uma pesquisa de 2010 realizada com 4.025 pessoas com mais de 16 anos em 11 capitais do Brasil revelou que 70,5% delas sofreram alguma forma de castigo físico quando jovens. Nos EUA, a porcentagem passa dos 90% – e fica em torno dos 10% na Suécia.

Esses números altos contradizem uma pesquisa feita pela CNN que analisou 16 países de culturas diferentes e sugeriu que a conversa é a arma mais poderosa para disciplinar as crianças. Tirar um privilégio (como videogame) é a segunda tática mais popular. As menos consideradas foram mandar as crianças para o quarto e bater nelas.

Ora parece que os pais não costumam bater nas crianças, ora parece que as batem a todo momento. Às vezes nos inclinamos às palmadas porque senão nossos filhos serão desobedientes e delinquentes, outras vezes nos inclinamos a não bater neles pelo mesmo motivo. O que fazer então?

De acordo com Tania Zagury, mestre em educação, filósofa, escritora e professora da Universidade Federal do Rio Janeiro, se parece que nossos antepassados conseguiram mais com os jovens do que se consegue hoje, seguramente não foi porque batiam nos filhos. O que ocorreu foi que uma série de fatores, como a influência das novas mídias exacerbando o consumismo, a corrupção (e a impunidade) por parte dos que deveriam dar o exemplo aos mais jovens, a desestruturação da família e a ausência de ambos os pais em casa, para citar alguns, tornaram educar um desafio gigantesco nas últimas décadas.

Com isso, os pais acabaram perdendo o foco do que é realmente importante. Muitos hoje consideram sua tarefa principal “fazer o filho feliz”, o que acaba resultando em apenas satisfazer desejos e vontades. Anteriormente, era “fazer dos filhos homens de bem”, significando priorizar fundamentos éticos na educação. “E isso se alcança com muito diálogo, ensinando a pensar e a não se deixar conduzir por mídias ou grupos. No entanto, é tarefa quase inexequível para quem não tem certeza do que é prioritário”, esclarece Tania. [MedicalXpress]

Texto traduzido pela Natasha